Há tradições que passam por nós e outras que passam connosco. As Nicolinas pertencem, sem dúvida, à segunda categoria. Em Guimarães, este conjunto de rituais estudantis não é apenas um costume anual: é um espelho vivo de identidade, memória e continuidade. É um património que pulsa, que ressoa, que nos chama.
Todos os anos, quando se aproximam os toques dos bombos, renova-se um sentimento coletivo difícil de traduzir. Os sons espalham-se pelas ruas estreitas, infiltram-se pelas janelas, despertam lembranças que atravessam gerações. Basta o primeiro rufar para que qualquer vimaranense — esteja onde estiver — sinta aquele aperto doce no peito, como quem reencontra um pedaço de si.
As Nicolinas são juventude, claro. São energia, irreverência, conquista do espaço público. Mas são também responsabilidade: o reconhecimento de que a liberdade não existe sem consciência, e que uma tradição só se mantém viva quando é cuidada. Os estudantes que hoje vestem a beca continuam a herdar, ano após ano, o papel de guardiões desta herança. Um papel que não se limita a cumprir rituais, mas a honrá-los.

Mais do que festas, as Nicolinas são uma narrativa: a história de uma cidade que entende o valor da participação, do encontro, da celebração partilhada. São um dos raros momentos em que todos — jovens, antigos estudantes, habitantes, visitantes — se reconhecem num mesmo pulsar. Num mundo cada vez mais fragmentado, este sentimento de pertença é precioso.
Há, naturalmente, desafios. O equilíbrio entre tradição e mudança é sempre delicado. Como preservar a essência sem congelar o tempo? Como acolher novas gerações sem diluir o significado? As respostas não são simples — mas talvez estejam, precisamente, na força comunitária que as Nicolinas sempre demonstraram. A mesma força que mantém vivas práticas seculares num tempo onde quase tudo é descartável.
Celebrar as Nicolinas é celebrar Guimarães. É reconhecer que uma comunidade se constrói em camadas — de memórias, rituais, pessoas, vozes. É recordar que somos mais fortes quando caminhamos juntos, quando respeitamos o passado ao mesmo tempo que abrimos espaço ao futuro.
Enquanto houver um estudante disposto a pegar no bombo, enquanto houver uma cidade disposta a ouvir, as Nicolinas continuarão a ensinar-nos aquilo que tantas vezes esquecemos: que a identidade não se cria por decreto, cria-se por vivência. E que há tradições que não são apenas nossas — nós é que somos delas.
