Escrever sobre o folclore de Guimarães é, antes de mais, reconhecer que esta cidade mantém uma relação única com as suas raízes. Aqui, o folclore não é apenas tradição, é linguagem, identidade, ponto de encontro e de celebração. É uma herança que se renova continuamente e que poucas terras portuguesas preservam tão intensamente a sua memória popular como Guimarães.
Um concelho repleto de grupos e de vozes
Guimarães é, reconhecidamente, um dos concelhos portugueses com maior número de grupos folclóricos ativos. São mais de duas dezenas. O que chama particular atenção não é apenas a quantidade, mas a forma como cada grupo representa fielmente a sua freguesia: traços próprios, memórias recolhidas localmente, modas específicas, trajes singulares, histórias transmitidas de geração em geração.
Danças que contam narrativas antigas
O folclore de Guimarães, como em todo o Minho, caracteriza-se por danças energéticas, compassos ternários marcados e sapateados firmes. Mas há características locais que dão personalidade ao repertório: o vira, o verdegar, a descansada, o malhão em versões próprias da região, e outras danças que recriam tarefas agrícolas e rituais religiosos que marcaram a vida das comunidades rurais vimaranenses.
Assistir a uma atuação em Guimarães é perceber que cada movimento carrega uma história, seja do linho, das vindimas, de romarias, de namoros secretos, de vida campestre e da fé popular. Dançar aqui nunca é apenas executar passos, é evocar memórias.
Cantares que ecoam a alma vimaranense
Se as danças encantam, os cantares emocionam. Muitas modas recolhidas pelos ranchos de Guimarães não existem noutros lugares. São melodias que sobreviveram graças ao trabalho dedicado de recolha, investigação e preservação feito ao longo de décadas.
Há cantares de roda, modas de trabalho, quadras amorosas, cantigas de desafio e temas religiosos que formam um património imaterial vasto. Quando, na Penha ou nas Festas Gualterianas, um grupo inicia um “malhão” ou uma moda tradicional da sua freguesia, a cidade inteira parece reconhecer-se naquele eco.
Trajes: o rigor de quem respeita a memória
Um dos aspetos mais valorizados do folclore vimaranense é a fidelidade dos seus trajes. Muitos grupos reproduzem peças com base em fotografias de finais do século XIX e início do século XX, em espólios familiares e testemunhos de habitantes mais antigos.
A sobriedade minhota manifesta-se nas cores fortes, nas saias rodadas, nos coletes bordados, nos lenços marcados e nos trajes de trabalho que lembram o quotidiano agrícola, sem perder o equilíbrio entre elegância e autenticidade.
Para além da tradição: um papel social insubstituível
É fácil pensar que um grupo folclórico existe apenas para subir ao palco. Na verdade, em Guimarães, eles desempenham um papel social vital.
Num mundo cada vez mais digital, estas associações continuam a ser lugares reais de convivência, disciplina, aprendizagem e pertença.
O futuro do folclore em Guimarães está bem vivo
Apesar de vivermos tempos onde a tradição parece competir com ritmos acelerados e interesses passageiros, Guimarães desafia a tendência. Os festivais continuam a encher-se, os grupos continuam a crescer, e a juventude não se afasta da cultura popular, pelo contrário, aproxima-se.
A digitalização de arquivos, os projetos pedagógicos e a ligação entre folclore e turismo cultural reforçam o caminho para o futuro. O passado não é aqui um peso é um motor.
Guimarães não preserva o folclore — vive-o
O folclore de Guimarães é um dos pilares mais sólidos da sua identidade. Não é espetáculo, é pertença. Não é passado, é continuidade. Em cada dança, em cada modo de cantar e em cada traje cuidadosamente vestido, reconhece-se um concelho inteiro que se recusa a deixar a sua memória desaparecer.
Guimarães dança porque vive — e vive porque dança.
